O que eu fui fazer ali
Cheguei na Superintendência de Atendimento ao Cidadão para trabalhar com os dados do sistema JÁ!. O JÁ! é o sistema de agendamento e atendimento de serviços ao cidadão do Governo de Alagoas, desenvolvido pela Superintendência de Tecnologia da Informação da SEPLAG. Minha função era transformar o dado que ele gera em informação e análise.
A superintendência opera onze Centrais JÁ!, quatro na capital e sete no interior, com cerca de trezentos serviços de trinta e dois órgãos. RG, CNH, carteira de trabalho, esse tipo de coisa. Não existia visão consolidada de demanda, tempo de espera, produtividade, satisfação nem cobertura territorial. Relatório executivo era feito à mão, um por vez.
O que eu construí
Concebi e desenvolvi sozinho, em três meses, uma plataforma interna que consolida 1,1 milhão de registros, sendo 471 mil agendamentos e 715 mil atendimentos entre julho de 2024 e setembro de 2025. São doze módulos sobre a mesma base.
Indicadores executivos com volume de pessoas atendidas, serviços mais procurados e taxas de cancelamento e de encaixe. Benchmarking das onze unidades, com ranking em onze abas. Mapa da origem dos cidadãos, coroplético, mapa de calor e clusters, cobrindo 102 municípios. Consulta paginada com rastreio do funil, de agendou até atendido, e auditoria de encaixes feitos por servidor. Produtividade por atendente, com percentis e saneamento de tempos entre trinta segundos e uma hora. Pesquisa de satisfação aplicada em campo, com treze dimensões, e o painel de resultados. Um simulador de dimensionamento de guichês, que projeta taxa de utilização e capacidade por cenário. E um catálogo de oito relatórios oficiais em PDF, entre eles o estudo de viabilização usado em análise de nova unidade em Rio Largo.
As decisões técnicas que eu defendo
A primeira é o ETL incremental e idempotente contra a API interna da STI. Ele autentica por token, baixa só o delta em parquet compactado e passa por seis etapas de enriquecimento. Rodar duas vezes dá o mesmo resultado. E o gatilho é um botão, porque quem precisa atualizar o painel não é engenheiro.
A segunda é a geocodificação offline. Georreferenciar a origem dos cidadãos por API de geocoding custa por consulta, e eram centenas de milhares. Resolvi de CEP para logradouro com uma base de onze mil CEPs de Alagoas, e de logradouro para coordenada com a malha de 181 mil faces de logradouro do IBGE, mais 1,63 milhão de pontos. Custo de API igual a zero, com normalização de unicode e regex para casar endereço digitado por gente.
A terceira é o motor de relatórios. Os PDFs saem por código com capa institucional, sumário automático e listas de quadros e gráficos, e o resultado fica em cache por hash do DataFrame, então relatório repetido não recalcula. Ao lado disso, normalizei milhares de profissões digitadas em texto livre em cerca de vinte e cinco famílias, por regex, porque campo livre não agrega.
A arquitetura é híbrida por escolha, não por acidente. Parquet local em cache para os 1,1 milhão de linhas, Google Sheets onde a equipe precisa editar junto, e Drive para arquivo. Subir banco dedicado ali custaria processo e não resolveria nada que o parquet não resolvesse.
A parte de economista
Complementei a plataforma com um estudo de séries temporais interrompidas sobre o efeito de nove reportagens de imprensa na demanda por atendimento, separando cobertura positiva de negativa e veículo governamental de privado.
Usei OLS com erros HAC e modelo de Poisson, testei estacionariedade e resíduo com ADF, Breusch-Pagan, Durbin-Watson e Granger, usei IsolationForest para achar anomalia, decompus sazonalidade, olhei heterogeneidade entre capital e interior, e comparei ARIMA, Prophet e Random Forest por RMSE e MAE com projeção de trinta dias.
Essa é a peça que junta as duas metades do meu trabalho. Medir efeito é pergunta de economista. Ter o dado limpo, no formato certo e atualizado sozinho para poder medir é trabalho de engenharia.
Como terminou
No último dia eu preparei o handover. Publiquei uma versão do repositório higienizada de dado pessoal, com README de instalação, estrutura e créditos, e a equipe seguiu operando a plataforma.
O repositório de trabalho continua fechado e vai continuar. Ele versiona base com dado pessoal de cerca de 1,1 milhão de cidadãos, nome, CPF, nascimento, contato e endereço. Não existe versão desse repositório que possa ser mostrada, e o certo é que não exista mesmo.
A continuidade da operação depois da minha saída não é comprovável por commit, porque acontece em cópia interna da SEPLAG. Quem atesta isso é a declaração oficial, assinada por três pessoas da superintendência via gov.br, que está no fim desta página.