O que eu fui fazer ali
Entrei na Superintendência de Orçamento Público para acompanhar e projetar a receita do Estado. Esse era o cargo. O sistema veio depois, por iniciativa minha, quando ficou claro que o problema ao meu lado era maior que o do meu escopo.
A lei orçamentária de Alagoas para 2025 fixou a despesa em cerca de 18,5 bilhões de reais e autorizou o Executivo a abrir crédito suplementar por decreto até dez por cento desse valor. Cada pedido de crédito entra pelo sistema de processo eletrônico e percorre até vinte e quatro estágios, da análise na superintendência até a publicação em decreto. Quando publicado e contabilizável, ele consome o teto legal.
O que existia antes
Planilha solta, sem trilha de auditoria. Ninguém conseguia dizer com segurança quanto do limite legal já tinha sido consumido sem refazer a conta à mão. E o relatório mensal que ia para a instância decisória era redigido manualmente, todo mês, do zero.
Isso não é lentidão de gente. É um problema de sistema. Controle de teto legal calculado à mão é uma pergunta que precisa de resposta certa, e a resposta certa estava sendo produzida por processo que erra.
O que eu construí
Fiz o SIGOF sozinho, em duas gerações. A primeira foi o núcleo de gestão do processo. Cadastro com treze campos validados por expressão regular de domínio, incluindo número de processo eletrônico, número de decreto, moeda no formato brasileiro e datas restritas ao exercício, com detecção de duplicidade e carimbo de usuário e horário em cada alteração.
Em cima disso, uma tabela com filtros de conjunto, pivô, células coloridas pelas vinte e quatro situações do fluxo e persistência de filtro na sessão. O cálculo do limite legal roda em tempo real e considera só o que está publicado e marcado como contabilizável, excluindo os Poderes e as emendas conforme a própria lei orçamentária manda.
E o relatório institucional passou a sair inteiro por código, em PDF e em documento editável, com base legal citada, comparativo mês a mês, ranking de órgãos por origem de recurso, composição por grupo de natureza de despesa e valores por extenso, com algoritmo próprio para escrever cifras até a casa dos trilhões. O que levava dias passou a levar minutos.
A segunda geração acrescentou uma camada de inteligência econômica. São dez pipelines de dados públicos, de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, produção agropecuária do IBGE, combustíveis e petróleo da ANP e despesa executada da fazenda estadual, gravando em parquet num data lake com deduplicação. Sobre eles roda um boletim de conjuntura gerado por código, com texto analítico escrito por regra determinística, e um painel geoespacial dos 102 municípios.
O que eu faria diferente
A primeira geração usava planilha como camada de escrita. Isso significa nenhuma transação, nenhum controle de concorrência e nenhuma garantia de que duas pessoas salvando ao mesmo tempo não se sobrescrevem. Também não tinha teste automatizado nem integração contínua, e parâmetros de negócio ficavam fixos no código em vez de configuráveis.
Eu sabia de parte disso na época e escolhi entregar. Sistema que existe e é usado ensina mais do que arquitetura correta que nunca sai. Mas o custo apareceu, e a geração seguinte nasceu com banco relacional de verdade, controle de acesso, versionamento de esquema e integração contínua exatamente por causa do que doeu na primeira.
Essa é a resposta que eu daria numa entrevista para a pergunta sobre dívida técnica. Não é hipotética. Eu criei a dívida, convivi com ela e paguei.
O que aconteceu depois
O sistema virou linhagem de produção. Hoje ele existe como produto reescrito em Java com Spring Boot no servidor e React no cliente, com banco relacional, versionamento de esquema, controle de acesso e limite de requisição, e é mantido por uma equipe.
Nessa reescrita eu assino cem por cento dos commits do frontend, cento e sete de cento e sete, mais vinte e três no servidor, e o autor principal do backend é outro desenvolvedor. Esse trabalho é posterior à minha saída da secretaria, então ele não entra na declaração daquele vínculo. Entra aqui porque mostra o que aconteceu com o que eu comecei.
A base de dados iniciada na primeira geração continua sendo a linhagem de produção. Um estudo de validação usa duzentos e cinquenta processos reais como gabarito.